MUNDO ESFACELADO
Não é difícil fazer um esboço das características do mundo moderno. Como diz José Castello, no seu livro “A Literatura na poltrona”: “... o mundo ficou mais acelerado e mais feroz” e “mais instável e atordoante”.
Outra característica de nossos tempos: a uniformidade e a repetição. Os seres humanos, os valores, as predileções, as maneira de agir, tudo alimenta o terror, o desamparo. É uma era suspeita, causa desconfiança, como denunciou Nathalie Sarraute, autora francesa do famoso romance “Bonjour Tristesse”.
Os homens ficam meio padronizados, as virtude e vícios arrefecem, se bem que nosso Machado de Assis já comprovara em seu conto A Igreja do Diabo, as tênues diferenças entre os dois valores.
É um conceito de domínio público, que amor e ódio são duas faces contrárias da mesma moeda. Só se pode odiar a quem se ama. Como alimentar este sentimento tão forte, por alguém que nos é indiferente? Uma pessoa neutra é como se não existisse. Como odiá-la? Ela não tem classificação alguma na gradação de nossos sentimentos.
No poema Congresso Internacional do Medo, Drummond menciona ser este sentimento nosso pai e companheiro: ele é tão essencial que “sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”. Estranhamente, ele afirma que o ódio não existe. Em uma leitura mais ampla, pode-se entender talvez que o poeta nos fala do esfacelamento dos sentimentos, neste mundo aviltado, coisificado.
É uma afirmação meio bizarra que tem certa lógica: o homem moderno vai ficando meio morno, incapaz de grandes paixões e ódios ferrenhos. Ele se apequenou. Nas notícias diárias dos jornais televisivos, custa-se a entender a brutalidade gratuita, a maldade irracional; é o efeito de uma causa maior, cada dia mais comum: o abastardamento dos pretensos seres racionais.
Temos que sobreviver em um mundo assim, caótico, globalizado. E sem volta. A inexorabilidade do chamado progresso atual não tem terapêutica, nem retorno. Há soluções que amenizam: uma delas é a Arte.
Assim, dentro do caos, quem faz literatura lança mão da mais eficiente função catártica, uma espécie de âncora. Por isso a produção literária não pode ser a antítese da crueldade do mundo moderno. Obras frouxas, adocicadas, com soluções prontas, falsas, são um engodo, não são literatura. Quando se escreve há que se ter a coragem de chafurdar no charco da modernidade.
Ao se procurar a razão de por que escrever, é bom lembrar a assertiva de Fernando Sabino: “Eu escrevo para saber por que escrevo”. E jamais se procurem razões mais brandas. Ainda é citando José Castello: “Escrever é atravessar um inferno”.
Quem faz ou lê literatura com a mera finalidade do entretenimento, é um achincalhe, no primeiro caso e uma perda de tempo no segundo. Nas duas possibilidades, uma grande fraude. A boa literatura deve ser, no mínimo, um antídoto contra o veneno letal do mundo moderno.