O SOM DA PEDRA
A
Arte tem seus mistérios. O mais
complexo e profundo talvez seja o
talento. Ele é intransferível, inegociável.
É inerente à pessoa, independente de raça, status, cor, situação
financeira. Ele pode, às vezes, hibernar, mas um dia eclode, como em uma
epifania.
A
reportagem que fala sobre Zabé da Loca saiu na Revista Terra da Gente, de
novembro de 2011. O autor é João Correia
Filho; desde o apelido dessa intrigante mulher, sua história, o talento, tudo parece mais
ficção que realidade. Ela aprendeu a tocar pífano com um de seus irmãos, passou
a infância na zona rural de Monteiro, a 320 quilômetros da capital da Paraíba.
Sua vida é luta sem tréguas, os detalhes de sua historia impressionam.
Com cinco
filhos, sozinha, ficou sem sua casa, que foi levada pela chuva. Mudou-se então para uma local, uma gruta,
perto da antiga casa. Isabel Marques da Silva virou Zabé da Loca, vivendo com
os filhos sob duas grandes pedras que se equilibram há séculos. Ergueu uma parede de barro, a cama no chão batido, mudou-se para a maloca, com alguns utensílios
de cozinha em um baú. História incrível.
Na gruta viveu por mais de vinte e cinco anos,
todavia nunca abandonou seu instrumento. A música era o alento para o viver sofrido.
O
articulista continua: “Mais de três décadas se passaram para que Zabé começasse
a ver vida e obra reconhecidas, a romper
as fronteiras do mundo. Em 2009, ganhou o Prêmio da Música Brasileira ( antigo
Prêmio Tim), um dos mais importantes da categoria no País, ao receber a estatueta de Revelação do Ano,
com CD Bom Todo, lançado dois anos
antes. Foi aplaudida de pé por Maria
Bethânia, Milton Nascimento e Elba Ramalho, aclamada como vencedora. Músicas
como Limoeiro, Balaio da Onça e Borborema revelavam ao Brasil um pouco do
universo da pifeira e do imaginário musical do interior do Nordeste”.
Pedro
Paulo Carneiro fez um documentário sobre
o Mundo Encantado de Zabé da Loca. A
pifeira semeou esperança no sertão. Desde 2008,
há um belo projeto para crianças, que aprendem a tocar pífano, caixa, zabumba,
prato e a marcar passos da mazurca,
dança tradicional que estava desaparecendo na região. São mais de oitenta crianças, as aulas
acontecem nos arredores da casa de Zabé
da Loca. O Governo ajuda um pouco e Zabé
ganha algum dinheiro com seus shows. Desde que recebeu o título
Mestres das Artes, recebe dois salários
mínimos mensais, verba destinada a figuras importantes da cultura popular
paraibana. JCF esclarece ainda: Apesar dos poucos recursos, uma das conquistas
do citado projeto é a banda mirim, formada por cinco jovens entre 13 e 15 anos.
Eles já se apresentaram na região e sonham alto.
Em um
mundo globalizado repleto de falsos valores artísticos, glorificados pela
mídia, Zabé da Loca é uma figura excelsa. Fisicamente miúda, o rosto, um mar de
rugas. E seu pífano, instrumento mágico,
é um semeador de esperança. De onde virá
tanta força e beleza, dessa criaturinha
iluminada? Ela é um poema de Deus.