sábado, 28 de setembro de 2013

FLUK

FLUK

FLUK era um gnomo como todos os outros, pequeno, insignificante, com três opções a escolher: guardar os tesouros do interior da terra, tomar conta de uma árvore ou ser guardião de uma roseira. Desde que o mundo é mundo, foi assim e ele devia dar-se por satisfeito: há criaturas que têm uma só opção, outras nenhuma. Mas Fluk não obedecia às leis naturais, só gostava do que não devia, não optou por nada quando completou a maioridade. Passava seus dias a ocupar-se de coisa nenhuma: olhar sua cachoeira que despencava lá do alto em branca espuma rendada, sentir o perfume das flores, vê-las abrir de manhãzinha.
Preferia observar os pássaros no amor, esfregando os biquinhos e roçando as penas macias dos papinhos coloridos, ver borboletas amarelas se amando sobre os roseirais. Era um romântico. Sentia-se só e o coraçãozinho apertava: a vida deve ter um sentido maior, cada criatura vem assinalada para uma grande missão. Qual a sua?
Cismava. Guardar tesouros, ouro ou diamantes, esmeraldas, rubis, safiras, pedras frias que não serviam para nada? Tomar conta de uma árvore frondosa, cheia de si, que não precisava de ninguém? A roseira tinha seus espinhos que a protegiam. E ele viera ao mundo para que? Por que a ânsia, aquela certeza de que algo ainda aconteceria?
Andava assim pelos caminhos, absorto, infeliz, esperando. Olhava as formigas e admirava sua faina incansável, tão ordeiras, obcecadas com o trabalho, carregando inacreditáveis folhinhas verdes para um futuro incerto. As abelhas eram lindas, as habilidosas obreiras ou operárias descendo no coração das flores, sugando o néctar, recolhendo nas patinhas o pólen, executando a dança quando regressavam às colmeias. Odiava a regalia, a imponência da rainha, invejava os zangões, que eram capazes de morrer por amor, no voo nupcial.
E assim vivia Fluk, zanzando de uma banda para outra o dia inteiro, banzando na vida, ouvindo os grilos e os vagos rumores do ermo, flanando por entre as flores, mordiscando uma pétala, vagueando sobre os arbustos, perambulando entre uma espera e um vago sonho.
Um dia viu FLORA, a rainha. Era a primavera e o céu exagerou no azul. O sol doirou a Natureza, aqueceu os corações, os pássaros trinavam, chilreavam, gorjeavam, pipilavam enlouquecidos de beleza. As borboletas coloriam o ar. Ele viu Flora em toda a sua magia primaveril, esparzindo amor e ternura. Fluk descobriu para que nascera: viera ao mundo para amar Flora. Tornou-se poeta. Escrevia poemas belíssimos que o vento levava ao ouvido da Amada. Ela, encantada com as palavras que eram pura melodia, dizia: “Meu Deus! Como alguém pode amar assim?”. Fluk, aos seus pés, mal elevava os olhos, humílimo, tímido, cego de amor.
Correram os dias. Flora continuava cada vez mais bela e mais distante. Fluk percebeu então que a vida pode ser trágica e cavar abismos entre as criaturas. Resolveu morrer. Ficava horas sentadinho perto de sua cachoeira, enxugando as lágrimas com jasmins e rosas brancas. Quando seu coraçãozinho não aguentou  mais, foi para o ponto mais alto da cachoeira e saltou.
Flora passava por ali e pela primeira vez reparou nele. Estranhou que tal criaturinha quisesse morrer e logo na primavera... Quando Fluk se atirou nas águas, a poderosa deusa Flora aparou-o nas mãos e transformou-o em um nenúfar, muito branco, muito belo, que foi pousar com suavidade em um remanso. E lá ficou eternamente, qual alva ninfa sobre a flor das águas.


  

domingo, 15 de setembro de 2013

FÁBULAS E PARÁBOLAS

FÁBULAS E PARÁBOLAS

      Fábulas e parábolas são narrativas curtas, de tempos imemoriais. Elas dão lições, tentam ensinar da maneira mais simples; no final, há sempre um ensinamento, às vezes chamado moral da história. Fedro é dado como o introdutor do gênero. É de sua autoria o famosíssimo texto O Lobo e o Cordeiro.          Todavia, o nome mais expressivo das Fábulas é Esopo, grego que nasceu em 620 a.C. e morreu em 564 a.C. No século XVII, La Fontaine, francês nascido em 1621, reescreveu as fábulas de Esopo, em linguagem clássica, modernizando as narrativas; há também algumas escritas por ele; cite-se como exemplo a deliciosa La Jeune Veuve.
     Jesus Cristo ensinava por Parábolas, algumas famosíssimas, vide a do Semeador, plena de sabedoria. Dizem que utilizava o gênero, para ser facilmente compreendido pelo povo. Nosso Mestre entendia de Pedagogia... 
     Às vezes se misturam os conceitos de Parábola, Fábula e Apólogo. Tentemos dar uma diferença simples: A Parábola dá uma lição de ética, através de prosa metafórica, para transmitir sabedoria. O termo vem do grego “parabole”. A Fábula, em geral, apresenta animais como personagens; eles agem como os seres humanos, com seus vícios e fraquezas. A moral vem em uma frase, no final da narrativa. O Apólogo é um gênero alegórico. São lições de vida, através de situações semelhantes às reais, envolvendo pessoas, objetos ou animais, seres animados ou inanimados. Um dos Apólogos mais famosos é A Agulha e a Linha, de Machado de Assis.
     Uma das Fábulas mais conhecidas, A Cigarra e a Formiga, foi reescrita até hoje, por muitos escritores. No entanto, ela é deliciosa na visão da nossa Emília, a contestadora, a personagem mais famosa de Monteiro Lobato. Quem não conhece a historieta, realçando, enfatizando o valor do trabalho e da poupança? A Formiga era precavida, trabalhadeira, prática. A Cigarra, boêmia, boa vida, cantava e dançava. No inverno, doente, fraquinha, a Cigarra pede ajuda à Formiga. Esta, nada cristã, bate a porta na carinha da Cigarra e ainda lhe dá uma lição de moral: Não cantou o tempo todo? Agora dance... Emília detestou a Formiga, amou a Cigarra e reescreveu o final da Fábula: Quando a Cigarra bate à porta da Formiga, esta abre e vê a Cigarra linda, bem vestida, com um casaco de vison. Nossa artista diz à Formiga: Quer alguma coisa de Paris? Fui contratada para cantar e dançar no Olimpia, com excelente cachê! A Formiga, furiosa, lhe diz: Conhece um tal de La Fontaine? Se o encontrar  lá, mande-o para o inferno!
      Assim são as Fábulas, eternas. Sua interpretação é riquíssima. Há uma delas, moderna, que já foi citada por muitos e até contada em filmes. É a da Rã e do Escorpião: Houve um dilúvio e o Escorpião chega perto da Rã, todo cavalheiro e lhe propõe que a Rã o atravesse para o outro lado. Os dois seriam salvos. Ao que a Rã retruca: Cuidado, se você me picar, morreremos os dois. “Você está louca, amiga Rã! Jamais farei isto!”. E lá vão os dois, atravessando o mar de águas turvas e perigosas. De repente, o Escorpião pica a Rã... Ela, moribunda, lhe diz: “Por Deus, por que fez isto?! Ambos vamos morrer!”. O Escorpião responde: “Não consegui deixar de fazê-lo. É minha natureza...”.
     Gosto muito dessa fábula moderna. Pela vida a fora, eu, Rã por natureza, credulidade ou ignorância, dei muita carona a Escorpiões de várias espécies. E haja picadas... Não me mataram, no sentido denotativo do verbo. Talvez apenas arranharam a minha crença nos seres humanos.
      

        

domingo, 8 de setembro de 2013

CARTA ABERTA A DEUS

CARTA ABERTA A DEUS
   
     Senhor! Não me julgue insensata, ousada ou herética. Eu O amo, respeito, mas não consigo entender as regras do Alto Escalão aí de cima. Elas existem? Tudo não pode ser casual e aleatório. O que acontece com os seres humanos, hoje e sempre?
      Tenho certeza de que a receita do Fiat era perfeita e Suas intenções as mais excelsas. Então, por que nunca deu certo? Cada vez mais os Homens chafurdam nos vícios, perdem-se nos mares da ambição, nos charcos das maldades. Tudo é culpa do malfadado e duvidoso livre arbítrio, que mais parece um presente de grego, que um prêmio?
      É bem verdade que aparecem alguns Santos, criaturas magníficas, que dão exemplos de bondade, de amor, de altruísmo. Todos os admiram, mas ninguém os imita. O Senhor até nos enviou seu Filho Jesus Cristo, só bondade, Homem e Deus, que deu a vida pelos irmãos. Adiantou? Não. Muitos dizem amá-LO, mas continuam nas veredas da perdição.
      Tenho ainda muitas perquirições. Criança ainda,  aprendi na Bíblia, que havia dois Profetas muito diferentes: Jó e Habacuque. O primeiro era dócil e obediente, passivo, aceitava os desígnios de Deus, sem protestar. Assim, foi um dos mais infelizes dos mortais. Habacuque, ao contrário, era orgulhoso, ousado, corajoso e questionador. Não tive dúvidas. Eu era mais Habacuque que Jó. Por isso, hoje, na velhice, continuo indignada com minhas eternas perguntas sem repostas.
      Veja, Senhor meu: os bons, os generosos, os puros de coração, os que fazem do amor, da caridade e da integridade, sua bandeira, como são recompensados? São mais livres de dores, perdas, doenças, sofrimento? Não. Muito pelo contrário.
Continuando, com maior respeito, meu Deus, siga meu raciocínio. Surgiram religiões, seitas que falam em Inferno. Verdade? Como o Senhor conseguirá lugar para tantos?! E ad aerternum, para sempre?! Outras filosofias negam a existência de tal sentença macabra. Falam em reencarnação, muitas partidas, idas e voltas, para depurar, aperfeiçoar.
      Não sei. Respeito todas as teorias, todavia tenho dificuldade em aceitá-las. Por quê? No mundo moderno e de sempre, justos e pecadores parecem receber castigos idênticos. Os Filhos do Demo (perdão, Senhor, é apenas uma expressão...), aqui não são castigados. Têm morte rápida e indolor, passagem fácil. Alguns bons, esforçados, amigos das virtudes, sofrem horrores, com doenças horríficas.
      Eu só queria entender, meu Deus querido: por que tanta falta de lógica? Há exemplos, não sei se verdadeiros, que alguns, como Voltaire, o grande hipócrita, morreu como um animal daninho, com pavor e dores, subindo pelas paredes, em tresloucada loucura. Não sei se é lenda. Mas e tantos outros monstros?
      Senhor, lance um olhar sobre esse mundo nosso. A maldade, a corrupção, a violência, bestialidades monstruosas, tudo ficou globalizado, comum, repetitivo. Basta o Senhor assistir, aí do alto, aos jornais televisivos do mundo... Ah, perdão! Quase me esqueci de que o Senhor não precisa disso, pois é a sapiência suprema, que tudo sabe e tudo vê.
      Mas, então, meu Senhor?! Há um porquê em tudo isto? Dá para entender? Há respostas? Perdão. Não estou LHE cobrando nada. São só elucubrações de uma pobre mortal, na minha  ignorância.  Se puder, me dê uma luz. É     pedir demais? Afinal, sou criatura sua.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

QUANDO SETEMBRO VIER

QUANDO SETEMBRO VIER

Ao ler o título acima lembro-me do Projeto homônimo, que consegui concretizar, durante onze anos. Em todo setembro, eu convidava alunos, jovens poetas de Ribeirão Preto e cidades da região, para virem ao    SESC, declamar seus poemas. Certa vez havia quatro ônibus de cidades vizinhas e o Auditório ficou repleto. Era gratificante, apareciam textos ótimos, mas algo me entristecia: os meninos, os jovens talentosos traziam poemas lindos, mas os liam com vozinha fraca, sem nenhuma expressão. Criativos, todavia mal preparados, matavam a beleza de sua obra. Tentei enriquecer os Encontros, convidando também jovens músicos.
Hoje, no entanto, falo de outro setembro, do presente, do agora. Ora, vivo em Ribeirão desde o final da década de 40, quando eu era ainda uma adolescente. Em 1996 recebi o título de cidadã ribeirão- pretana, oficializando assim, o grande amor clandestino. Amo esta cidade acima de qualquer outra. Até a linda Belo Horizonte, rodeada pelas montanhas mágicas e coloridas, ao entardecer... E nunca presenciei algo idêntico ao que está acontecendo agora na muito minha Ribeirão.
A Cidade tem quatro Academias de Letras, A Casa do Poeta e do Escritor, a UEI (União dos Escritores Independentes), o Grupo dos Médicos Escritores e em 2014 haverá a Décima Quarta Edição da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, já famosa em todo o País e até no Exterior. Sabe-se que Ribeirão tem o maior número de Faculdades per capita. Enfim, a Cidade tem tudo para ser digna de um antigo epíteto, A Capital da Cultura. Para estímulo maior, amantes da literatura, grandes ativistas literários, apresentam Programas líteros - musicais, organizam Saraus que vão ficando famosos, como os de Irene Coimbra, no Hotel Nacional. Mensalmente, um público de mais ou menos cem pessoas comparece a esses encontros para ouvir falar de literatura, escutar boa música  e declamações.
Contudo, nada é perfeito.  Os   Sodalícios enfrentam problemas diversos, a Feira Nacional do Livro faz sucesso graças ao trabalho insano e notável de pessoas idealistas, como Isabel de Farias, Heliana Silva Palocci (que se afastou do cargo da vice-presidência, cedendo-o a outra mulher brilhante, Adriana Silva), o nosso quixotesco Edgard de Castro, contando agora  com a ajuda da competente Viviane Mendonça e mais um verdadeiro exército de voluntários, que tem conseguido dar brilhantismo ao mais importante evento cultural da Cidade.
Na contramão, críticos de plantão, pessimistas e amargos (gente até muito inteligente, escritores e articulistas) alertam sobre os erros, não mencionando os acertos. A crítica ácida nada ajuda. Por que não estimulam os movimentos, participando, dando sugestões?
Pode parecer otimismo infundado ou até ingênuo, mas conhecendo de perto a Feira Nacional do Livro  de Ribeirão Preto, a incrível evolução do teor literário dos Concursos, que têm descoberto ótimos escritores, a grande quantidade de gente escrevendo, interessando-se pela literatura, os Saraus,  Editoras lançando gente nova, obras variadas, tudo alimenta a esperança de uma messe farta, que, se não resolver os problemas sociopolíticos cruciantes, é um bálsamo, uma certa luz.
Não deixemos nos cobrir com a cinza do pessimismo, evitemos a cegueira daqueles que nunca aprenderam ou se esqueceram da grandeza humana. Esperança e otimismo não fazem mal a ninguém. Muito pelo contrario.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

TORTURA MODERNA

TORTURA MODERNA
          
     O exame chama-se Ressonância Magnética. É uma experiência trágica, da qual jamais se esquece. Um pesadelo.  O paciente, após preencher um formulário com dezenas de perguntas minuciosas, assina como responsável, caso algo lhe aconteça. Dirige-se para uma sala branca e fria, não pode usar nada de metal (anéis, relógio, até grampo de cabelo).
     Deita-se em uma cama. Na parte posterior, uma espécie de túnel. O infeliz é imobilizado (cabeça, braços, mãos; máscara branca sobre os olhos), tampões nos ouvidos). Avisa-se que haverá muito barulho (os tampões são inúteis...). Começa a sessão de tortura.
     Pouco mais de uma hora, com barulhos, ruídos absurdamente fortes, violentando todos os decibéis possíveis. Eles são variados: batidas de madeira, de ferro, sirene, apitos de navio, claque, roldanas estrídulas, choques, estrondos. Repetições de vinte vezes, cada espécie horrífica. De vez em quando, a cama cede uns centímetros, para frente. Imagina-se que o horror acabou. Ledo engano! Outra série se inicia, com variações...
     De olhos cerrados, todo o tempo, houve momentos que pensei em desistir: levantar-me, libertar-me, fugir! Continha-me. Eu teria que voltar e recomeçar tudo... Comecei a ludibriar a situação. Sem abrir os olhos, primeiro rezei. Não ajudou muito. Tentei analisar as várias espécies de estalos, ruídos, uns mais surdos, outros cortantes, metálicos. Após, piorou. A Máquina trepidou como se eu estivesse dentro de um liquidificador vazio.
         Tive uma ideia, para driblar a tortura: fazer elucubrações do porquê o meu neurologista me pedira dois exames monstruosos. E do crânio. Ele espera encontrar o que no meu cérebro? Personagens literárias, monstros rastejantes, alienígenas? E, se, de repente, um inesperado tumor surgisse?
         Fiquei sádica e metafísica. Conversei com Deus e LHE disse que aceitava a sentença, a morte. Imaginei o féretro, a partida, o adeus a pessoas queridas... E os sonhos não realizados? E as pendências? De repente, não mais que de repente, como disse o Poeta, fiquei otimista. Nem precisei de tomar a injeção de contraste. Isto é bom ou ruim?
     Sou leiga em Medicina, nada sei de exames e um pouco trágica (para não dizer covarde...), para enfrentar problemas de saúde. Continuei, em plena guerra dos barulhos, a inventar meios de sofrer menos. Brinquei, em pensamento, de escanear meu cérebro... Mas tudo logo me cansava e o inferno não acabava!
     Finalmente fez-se silêncio. Paz de morte, de salvação. Ninguém nada falou. Nem eu. Boca não disse palavra... Fiz ficção: o médico e a enfermeira, todos se foram e me abandonaram aqui... À minha sorte! Até quando?! Dali alguns minutos, ouvi a vozinha agradável da jovem: “O médico está examinando as últimas imagens... Logo a senhora poderá sair”. Mais uns dez minutos de pesadelo.
     Finalmente libertaram-me, tudo acabara! Sentei-me na  cama, mais pálida que o lençol. Dor de cabeça, olhos pesados, zonza. Fui pegar minhas coisas e me dirigi para a Sala de Espera. A tortura terminara. Na minha ignorância, tentava entender o acontecido. Com a tecnologia tão adiantada, por que uma Máquina monstruosa?! Sem nada entender, questionei com meus botões se aquilo, o fragor horrendo, tudo   não seria necessário, justamente para instigar, estimular meu cérebro, para ver sua reação? Curiosidade enorme para ler o Laudo, que só sairia dali alguns dias.  Na data marcada, voei até o local, abri o grande envelope branco. Lá estava o resultado, o relato, em arrevesada linguagem científica, com nomes bizarros.
         Fui ao médico, para que ele “traduzisse” aquele linguajar estranho. Ele leu e afirmou: nada de significativo. Tudo normal para sua idade... Tive vontade de matar o meu neurologista.


domingo, 11 de agosto de 2013

UMA CERTA CARTA ROSA

                UMA CERTA CARTA ROSA

Meu destino sempre foi ligado ao gênero epistolar, às cartas. Por isso, até hoje ainda não me acostumei ao laconismo breve dos e-mails. Parecem algo falho, um recado. Quando era muito jovem, terminei um romance de adolescência (nem me lembro o nome do Romeu, que morava em uma cidade meio distante); ele confessou: Não me importo de terminarmos tudo, mas suas cartas não devolverei. São um tesouro para eu mostrar a meus filhos e netos, daqui muitos anos... Quando estava na Faculdade, na lírica Belo Horizonte, conheci, no Curso de Letras, as epistolas da famosíssima Maria de Rabutin-Chantal, Marquesa de Sévigné, do século XVII.  Ela residia em Paris e quando sua filha foi viver em uma cidade da Provença, a mãe saudosa lhe escrevia longas cartas, todos os dias. Eram textos originais e belos. Pelas 722 cartas à filha, Me. Sévigné entrou para a Literatura Francesa.
Nos quatro anos em Beagá, eu escrevia às amigas, imitando o estilo de Me. Sévigné. Anos depois, em um Banco, em Ribeirão, o Gerente me confidenciou: Eu lia todas suas cartas que escrevia à minha filha. Você não pode reclamar, pois ela as “publicava” no corredor da Faculdade, em São Paulo,  porque todo mundo queria lê-las. Será por essa influência que publiquei, em 2003, o livro Cartas a Cassandra, o primeiro romance epistolar brasileiro? Quando fui a primeira vez à Europa, optei por um navio inglês. Quinze dias diante daquele marzão lindo! Fui escrevendo uma carta à minha mãe, todos os dias. Em Lisboa, postei a missiva de vinte e oito páginas.
Estou assim, melancólica e emocionada, porque há poucos dias recebi pela Internet uma carta linda, rosa, muito pessoal, um dos textos mais sensíveis e líricos que já li. Não pedirei licença à autora, para lhe falar sobre ela, caro Leitor. Já confessei de público que o escritor tem o direito de transformar em sua personagem qualquer pessoa que o encante. A história de minha remetente é linda! Ela era professora e fazia Laboratório de Redação comigo. Casada, com duas filhas adolescentes, desavisada, vivendo seu casamento pretensamente feliz. Não conhecia ainda os alçapões da vida. O marido chegou e disse: Descobri que não nasci para ser casado. E saiu de casa.
Minha heroína chegou arrasada ao Laboratório. Chorara muito, queimara seu vestido de noiva, tinha esperança que o marido voltasse. Chamei sua atenção, enfatizei que o crápula não a  merecia. Ela era linda, jovem ainda! Que ela tomasse um banho de loja, saísse, procurasse se divertir, renascesse! E quando nosso anti-herói quisesse voltar, fosse irônica e lhe agradecesse por sua liberdade.
Mistério da natureza humana! Meses depois, minha heroína era outra mulher! Desabrochou como flor fora da estufa. Até seus textos mudaram de estilo. Ela começou a escrevê-los de forma forte e atraente. Ora, foi esta minha personagem fascinante que me mandou a bela carta rosa. Confessou-me que anda apaixonada pela Literatura e está escrevendo muito. Entra em cena a outra faceta rica dessa jovem senhora notável: a escritora. Sei que vou amar também esse lado atraente da mulher lírical. Eu a conheço bem: ela é inteligente, culta e de rara sensibilidade. Não há receita mais perfeita para dar certo.
Ave, nova Escritora! Bem-vinda ao mundo das Letras!


domingo, 4 de agosto de 2013

VIVENDO E APRENDENDO

VIVENDO E APRENDENDO           
     Sempre fui encantada com as palavras. Cada vez que eu conhecia um termo novo, eu quase entrava em transe. Ficava abismada, vislumbrando mistérios semânticos. Acho que nada mudou. Um dia desses, em um jornal televisivo, ouvi dos repórteres dois vocábulos desconhecidos e muito bizarros: DESAPOSENTADORIA e DESAPOSENTAÇÃO.  Seriam neologismos já aceitáveis no Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), lei maior da Academia Brasileira de Letras, ou no Houaiss? Fui pesquisar no Doutor Google. Quem vive sem ele hoje? É uma sina, um vício moderno...
     Meu interesse não é jurídico. Pertenço ao grupo, cuja  aposentadoria durou só uma semana. Fui atacada por uma melancolia que quase descambou para a depressão. Antes que o bicho me pegasse, recebi um recado do COC, pedindo que eu criasse um Laboratório de Redação. Aceitei e lá fiquei dez anos. Quando “aposentei de novo”, descobri que era uma workaholic e não sabia viver sem o trabalho. Fundei o meu próprio Laboratório. Foi assim que lecionei cinquenta e dois anos...
     Agora sosseguei. Só escrevo para quatro jornais (dois de Ribeirão, um de Minas e, eventualmente, em um tabloide literário de São Paulo).      Reviso meus treze livros, escrevo Prólogos, leio originais de escritores, cuido de minhas duas Labradoras e até faço café de manhã, porque tenho o hábito de madrugar. Ah, e agradeço ao amigo Computador, que me traz, fresquinhas, as primeiras notícias do dia, recados  nos e-mails, no Facebook.
      Mas voltemos aos meus dois vocábulos descobertos.         Os termos surgiram para designar a possibilidade de uma nova aposentadoria, para os já aposentados pelo INSS, que permaneceram no mercado de trabalho a fim de melhorar a renda familiar. A matéria provoca ainda celeumas, porque há pontos obscuros. Ela está para ser decidida no Supremo Tribunal Federal, em Brasília. A votação encontra-se, atualmente, suspensa. Na realidade, é mais um Projeto, mas já existe até Lei: é a 9.876/99. É apenas uma esperança de possibilidade futura.
      Fiquei pensando por que encontrei tanto prazer na pesquisa. Deve ter sido um velho sonho que ressurgiu: fazer Direito. Há muitos anos, cheguei ir a uma Faculdade para fazer matrícula. Mas ficou só na intenção, no Depósito dos Sonhos Falidos... Logo após, minha curiosidade voltou para outros dois termos que também “descobri” esses dias: Ressurgência ou Afloramento. São dois vocábulos usados em Oceanografia, para designar um fenômeno que acontece em alguns locais dos Oceanos: é a subida de águas profundas, muitas vezes ricas em nutrientes, para regiões menos profundas do oceano, como acontece, no Brasil, em Arraial do Cabo. Encantei-me! E no reino riquíssimo da Semântica, lembrei-me dos parônimos imergir e emergir. Daí à Psicologia, foi um pulo: A ressurgência ou afloramento na psique humana não seria a imersão do consciente no inconsciente e de lá trazer realidades desconhecidas e submersas da alma humana?  Fascinante!
     Uma coisa leva à outra. Da Psicologia, visitei a Mitologia Grega, lembrando um dos mitos mais belos, a lenda de Eros e Psique. Mas não se assuste, Leitor. Paro por aqui. Ninguém é obrigado a embarcar nas elucubrações, ou nas idiossincrasias da articulista. Sinônimo dessa palavra esquisita?  São manias, meu caro. Hoje, definitivamente, eu não deveria escrever. Perdi as rédeas no Reino das Palavras.
(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora. O artigo de hoje é dedicado ao Vicente Golfeto, ex-aluno querido, escritor, colunista e amante da Etimologia.