domingo, 9 de setembro de 2012

A ANTOLOGIA MÁGICA


A ANTOLOGIA MÁGICA
     Às vezes acontecem coisas que parecem episódios de ficção, texto bizarro de algum autor desconhecido. E a inteligência, a criatividade do script impressionam. Foi o que se deu, há alguns meses, com um misterioso livro que me chegou às mãos, por caminhos tortuosos.
    Eu falava ao telefone, com meu advogado, homem inteligente, espiritualista, quando ele me disse que ganhara um livro de uma senhora residente em uma Casa de Repouso de Ribeirão Preto. Como ele não era um expert no gênero poético, gostaria de me enviar o livro para que eu o lesse. Um dia depois, a obra estava na portaria de meu prédio. Era um exemplar velho, meio encardido, carregando na capa e nas primeiras páginas  a prova de sua antiguidade.
   Abri a antologia  Poesia Brasileira Hoje, com o título de Os Poetas Estão Chegando, Editora Soma, 1979, Ano Internacional da Poesia. As orelhas são de um autor de renome, Torrieri Guimarães. Lá ele diz que o livro é descompromissado com qualquer corrente literária, com poetas de todas a gerações e todas as tendências. O seu compromisso maior é com a Poesia.             Despojados e autênticos, sem limitações de escolas ou de estilo, de temas ou de gosto. Ali há emoção e pensamento, crítica social e lamentos de amor. Há Poesia. No final, otimista, Torrieri  enfatiza que os autores esperam estar em todas as escolas, com professores e estudantes, para colocar, sobre a crua realidade de nossos dias, o manto suave da Poesia. É preciso poetizar a vida. Eis a salvação, são sua palavras finais.
   Desconheço o destino do livro, se fez sucesso ou não. Eu o abri e na página 4 há um poema também de Torrieri Guimarães, espécie de convocação aos brasileiros, à nossa raça tão miscigenada, versos cheios de belas metáforas e alusões históricas. Após, quase quarenta poetas. Uma pequena foto em preto e branco, ao lado uma minibiografia e alguns poemas de cada um.
   Fui folheando aquelas páginas, procurando a poetisa que oferecera  o livro ao meu advogado. Homens e mulheres, poetas jovens e mais maduros. Tive, então, grandes surpresas.  Os autores vêm em ordem alfabética. Os poemas são de gêneros, tamanhos e temas muito variados, todos, no entanto, bem escritos, com vocabulário rico e belas metáforas. Na página 44 está Eva Ban, poetisa gaúcha que conquistou fama no Brasil e nos Estados Unidos, com muitos prêmios; um poema seu da Antologia vem escrito em inglês. A segunda poetisa é Alice Bueno de Oliveira, a que ofereceu o livro. Olhei sua foto e estremeci. É muito parecida com minha mãe, naquela idade. Quantos anos tinha, na ocasião? Trinta? Cabelos da época, maquiada, beleza e dignidade. De sua autoria, um poema bonito, de um lirismo melancólico e várias trovas premiadas em Concursos de São Paulo. Algo me impressionou: Como viera viver em uma Casa de Repouso, alguém tão sensível, inteligente, com profissão definida?
    Na Antologia estão também o amigo famoso André Kisil, J. B. Sayeg, membro da Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP. A grande surpresa foi o rosto simpático e jovem de Miguel Cione, meu professor, quando eu era apenas uma adolescente. E de repente, um susto: o jeito de menino, os cabelos negros, o intelectual sério,  político atuante, nosso brilhante professor Gilberto Abreu.         Estou até agora lendo e relendo a preciosa Antologia. Nas mãos, um tesouro  que devo devolver, mas que o coração pede para ficar comigo.
             
           

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