domingo, 5 de maio de 2013

OS CONCEITOS E SEUS MISTÈRIOS


OS CONCEITOS E SEUS MISTÈRIOS       
         
     Como os seres humanos são tão complexos, seus conceitos não poderiam ser diferentes. Até mesmo as palavras, na Comunicação, mudam de sentido com o tempo, algumas até desaparecem. Hoje, alguém poderia mandar uma pessoa calar-se, fazer silêncio, dizendo-lhe “Caluda!”? Ou exprimir espanto e admiração, falando: “Cáspite”? Quem se lembra do sentido primeiro do termo “formidável”, usando-o como sinônimo de enorme, imenso, que dá medo?
      Assim também são os conceitos. Um dia desses, brincando com alguém de quase oitenta anos, que vai publicar seu primeiro livro, eu lhe disse: “Oh, meu escritor bissexto!”. Ele estranhou. Disse-lhe eu então que era aquele que escrevia apenas um livro. Temos exemplos famosos. Aníbal Machado levou mais de vinte anos escrevendo o romance João Ternura.
       Sentindo que a morte se aproximava e estando o livro pronto, pediu ao seu amigo Carlos Drummond de Andrade, que tomasse conta de sua obra. E Drummond assim o fez. Um ano após a morte de Aníbal Machado, em 1965, João Ternura foi publicado e tornou-se uma obra famosa na Literatura Brasileira.
        Durante muito tempo usei a expressão “escritor bissexto”, despreocupada, até que recentemente fiquei sabendo que Manuel Bandeira, por modéstia e humildade poética, às vezes dizia que ele era um Poeta Bissexto, isto é, que só fazia um poema, quando a inspiração vinha... Ora, então podemos dizer que Clarice Lispector é uma Poetisa Bissexta. Famosíssima por seus romances, a escritora brasileira mais traduzida no mundo, ela, de vez em quando fazia um poema.
      Lembrei-me de um fato literário pitoresco. Guimarães Rosa escreveu um livro de poemas, Magma. Apesar de obra premiada, ela foi praticamente banida da bibliografia do nosso Mago de Cordisburgo, um dos maiores escritores brasileiros, o romancista que criou uma linguagem nova, um mundo mágico inigualável. Como poeta, ele era apenas bom. Mas como o autor memorável do Grande Sertão: Veredas ou de Sagarana, ele é único. Guimarães Rosa é, pois, um poeta bissexto.
      Outra observação interessante: em Literatura, na realidade, há autores que não têm predileção pelo gênero da prosa ou do verso. O primeiro requer mais lucidez, realce de argumentos, criação de núcleos narrativos, tipos de discurso, personagens. O segundo é muita inspiração, sensibilidade, estado de alma, linguagem figurada. Mas está longe de se ter uma definição exata, de haver  limites entre os dois gêneros. E aí está a obra magnífica de Maria Carpi, que consegue ser grande na prosa e no verso.
      Em qualquer gênero, há que se ter TALENTO, uma dose de criatividade, de sensibilidade, conhecimento rico da língua na qual o autor se expressa. Alguém dirá: há outras coisas a se discutir, como por que se escreve, o papel da inspiração e do conhecimento profundo das PALAVRAS, até onde há realidade e/ou ficção no que se escreve. Mas isto é assunto para outro artigo. Não. Para um livro.


        

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