RIBAMAR DE JOSÉ CASTELLO
São cada vez mais raros os
escritores estilistas, isto é, aqueles que têm grande riqueza de linguagem ou
de procedimentos literários e não se preocupam apenas em contar uma bela
história Em contrapartida, há nos Estados Unidos até Escolas Superiores que
ensinam aos escritores como escrever um best-seller de sucesso, isto é, o tipo
de romance de trama rica, que atrai o público, obras que dão excelentes
adaptações para o cinema. É uma literatura chamativa e comercial.
José Castello é jornalista,
cronista, repórter literário , biógrafo e um grande romancista. Não é aleatório
que ele já tenha recebido um Prêmio Jabuti e agora, com Ribamar ( Editora
Bertrand Brasil Ltda. Rio de Janeiro, 2010), obteve, de novo, a expressiva
premiação. É uma obra muito original, singular.
Nela, o romancista e o crítico se mesclam, pois, de certa maneira, o
romance é uma análise profunda de Carta ao Pai, de Kafka.
Os dois livros e as personagens se
misturam em uma quase consubstanciação literária. Dois filhos sofrendo,
procurando sua identidade e a do pai, criatura bizarra, incompreensível. O
notável , porém, é que nesta procura, em Ribamar
o narrador / filho se transcende e se alteia ao universal, concretizando uma
síndrome de solidão e de sofrimento.
Outro procedimento literário notável
é que o romance, em última hipótese, é uma metalinguagem. Como e para que escrever, quando se tem a alma “fechada a
cadeado”. As palavras são perigosas, traem. Ao serem usadas, a literatura se
transforma em um caminho para o autoconhecimento. Todavia, ao mesmo tempo, “ a
literatura é uma chave. Instrumento inútil que não corresponde a nenhuma
fechadura. Uma chave que atesta o fracasso de todas as chaves”.
Seguindo as veredas sombrias de
Franz Kafka, o narrador de Ribamar diz: “ Não chegarei a escrever o livro que
escreverei”. Seguem outras assertivas amargas: “Os filhos__ como os vampiros__ sugam as
forças do pai”; ou “Diz-se que eles “se identificam”, mas o que se passa é bem
mais violento: eles o “devoram”.
Assim, Ribamar é um romance amargo,
profundo, caminho único de uma procura, porque “Existir é vigiar”; surge também
o paradoxo: “Falamos para não falar. A língua não como comunicação ou expressão,
mas como castração”; porém, “só a literatura pode dar conta” e então, o livro
deve nascer, como redenção.
“Ler é expor-se” diz o narrador de
Ribamar. Nas orelhas do livro, Gonçalo
Tavares alerta: é um livro que nos interpreta. Esta asserção pode ser ratificada em outros textos de José
Castello. Durante a leitura do novo
romance de JC, aprende-se muito o que é ler, como a literatura é um instrumento
que pode ser usado pelo leitor perspicaz, como um dos caminhos para conhecer a
si próprio.
Romance rico e complexo, Ribamar apresenta,
todavia, capítulos curtos e de leitura agradável. A linguagem pretensamente
simples e clara, é também um paradoxo. O livro, na realidade, é um caminho
intrincado, trágico, labirinto onde o leitor ingênuo pode mergulhar em dúvidas abissais, sem
respostas, nos emaranhados silogismos perigosos, quando tudo pode ser falso ou
verdadeiro.
Sempre que se lê José Castello, a
sensação é semelhante. Ele mais suscita
questionamentos que os responde. No entanto, sai-se enriquecido da leitura.
Contudo, ao comentá-la, tem-se a certeza de que só se arranhou um tesouro
precioso. Boa literatura é assim: atraente, mas frustrante, porque se percebe
que a sobra é um feudo cerrado.
Comprovando isto, basta ler o final
do romance Ribamar. Pura ousadia, com
ricas interpretações que nos lançam nas mais variadas
elucubrações.