RECADO
Na
semana passada eu te escrevi, enfatizando a tua importância e mostrando-te
que nada teria sentido, quando escrevo, sem ti. Tu és meu co-autor, meu
comparsa. Hoje, no entanto, eu te falo como a um irmão, meu sósia, xerox que
somos de alma, de fraquezas e de grandezas misturadas, fazedores de sonhos,
perdedores de ilusões, mal informados na arte de viver, na qual somos jogados
como em uma louca partida, sem mesmo conhecer as regras do jogo, a arbitragem,
limites do campo, o tempo disponível e se há possibilidade de prorrogação.
EU sou
TU, Tu me és, como diria Clarice Lispector. Se não acreditas, desarma-te,
esconde tuas garras e tuas tramas, tira todas tuas máscaras habituais e
responde:
_
Nunca te sentiste inseguro, vendo o mundo como um quebra-cabeça sem matriz e de
onde roubaram algumas peças?
_ Não foste, na adolescência, uma sarça
ardente de sonhos, um vulcão de entusiasmo, acreditando que o mundo ali estava
para ser conquistado?
_
Não te alimentaste do fervor e do fogo com o primeiro amor, para vê-lo logo
após te fugir das mãos, como areia em ampulheta maldita?
_ Não
fremiste com o primeiro beijo, o primeiro carinho, trilha encantada e depois
perdida para sempre?
_ Não foste um Sísifo rolando eterna pedra,
construindo castelos de sonhos que eram derrubados pelo tempo?
_ Nunca andaste sob as estrelas, pelas
madrugadas, cego pelas lágrimas que te escorriam pelo rosto?
_
Jamais foste traído pela pessoa querida, pelo ente amado, em quem punhas todas
as tuas esperanças?
_
A vida não te pregou peças, atrapalhando teus planos, frustrando tuas expectativas,
fazendo-te de bufão, quando o teu papel era de rei?
_
Tu não juraste jamais te apaixonares de novo, quando teu amor morreu, e te
viste, de repente, outra vez, inexoravelmente louco de paixão?
_
Não prometeste ser forte, heróico, perfeito e sem explicação alguma foste
arrastado pelas tuas fraquezas?
_
Não bateste no peito, mil vezes, “mea culpa”, “mea culpa” e de novo teus velhos
pecados te possuíram, com fatídica renitência?
_Não
disseste, apaixonadamente, “Eu te amo para sempre!” e, em um átimo, já havias
esquecido a promessa?
_
Teus lábios não disseram tantas vezes “sim”, quando teu coração negava, ou tua
boca não pareceu mentir o que deveras sentias?
_
Não tiveste, como o Cristo, o teu Gólgota?
_
Não sentes, ainda hoje, apesar de todo o Absurdo, uma obstinada Esperança?
_
Não continuas servo da Morte, todavia um amante pertinaz da Vida?
Se nunca experimentaste isto, se jamais
conheceste esta rota, se achas que digo loucuras, se és diferente, então vai
embora, teu lugar não é aqui. Não és um ser humano.