terça-feira, 18 de setembro de 2012

BAZAR LITERÁRIO


BAZAR LITERÁRIO
           Em agosto, Nilva Mariani  lançou mais um livro, com o título Bazar Literário. Batizar uma obra requer cuidado e sutilezas.  O nome de batismo deste filho mais recente da grande escritora foi muito bem escolhido. Ela está muito à vontade,  escolhendo textos sem preconceito de gêneros, temas. Abre o livro com o belo poema A Magia da Palavra,  publicado na Antologia Poética Ave, Palavra! (Funpec-Editora, 2009). É um texto antológico, retrato vivo da escritora, por sua erudição, filosofia, religiosidade, amor à Natureza e às Artes.
             Logo a seguir vêm poemas, intercalados de textos em prosa poética, como o “Se Eu Pudesse Dizer” (páginas 34 e 35), de um lirismo delicado e um toque de erotismo, quando canta a figura do pai, artista e poeta. Talento é genético? Seguem  verdadeiras  aulas  preciosas de  Teoria da Literatura,  como em O Poema em Prosa  (págs. 36,37,38), onde ela enfatiza os sábios conceitos dos professor Massaud Moisés.
             Nilva conhece profundamente as literaturas Francesa, Portuguesa e Brasileira. Nota-se, na primeira, uma predileção pelo autor mundialmente famoso, Proust. Temos, em Bazar Literário, um capítulo sobre o grande romancista francês (1871-1922), de quem se afirma que a história do romance tem duas faces, antes e depois de Proust, autor de          À Procura do Tempo Perdido, título geral de um trabalho que engloba sete outros romances. Segue-se um conto da própria Nilva,  sob o título Meu Conto de Proust,  onde narra uma interessante experiência com as “madalenas”; se em Paris as bolachinhas mágicas inspiraram Proust  a escrever sua obra mais famosa, com Nilva, a magia não aconteceu, talvez porque mudou geograficamente o episódio,  transferindo-o para Lisboa...
             A partir da pág. 45, vem  uma série de textos (Crônicas?Contos?) , alguns com características mais visíveis do gênero do conto, outros mais leves, como crônicas variadas sobre temáticas diversas, como reminiscências, ou narrativas meio filosóficas, ou abordando assuntos populares, como em Brasil X Brasil, Evoé, Momo!, ou ainda relembrando filmes famosos e até um texto pitoresco, Montagem (pág. 72), no qual a autora joga com uma série de títulos cinematográficos, em uma espécie de mixagem inteligente e criativa.
              
             Sem nenhum preconceito  ou critério especial, há textos sobre Crianças (pequenas narrativas)  e em seguida, o didático A Reforma da Língua Portuguesa, o texto alicerçado na Bíblia, Lições de Jesus. Assim, sem  preocupação com a diversidade temática, seguem reminiscências da infância, defesa da injustiçada classe do Professor, problemas na Educação, alguns textos criticando a desonestidade e a corrupção política.  
             A partir da página 45 há uma série de textos , alguns com características mais visíveis do gênero do conto, outras mais leves. Na página 125 inicia o excelente artigo sobre Fernando Pessoa e o Ocultismo. Profundo, inteligente, Nilva chama a atenção para caminhos diversos a serem estudados em Fernando Pessoa. São veredas que a autora aponta.
             Bazar Literário é um livro rico, variado e atraente. No final, Nilva Mariani coloca vários textos sobre sua obra, escritos por amigos e escritores, que realçam seu importante papel na cultura e na literatura.
         

domingo, 9 de setembro de 2012

A ANTOLOGIA MÁGICA


A ANTOLOGIA MÁGICA
     Às vezes acontecem coisas que parecem episódios de ficção, texto bizarro de algum autor desconhecido. E a inteligência, a criatividade do script impressionam. Foi o que se deu, há alguns meses, com um misterioso livro que me chegou às mãos, por caminhos tortuosos.
    Eu falava ao telefone, com meu advogado, homem inteligente, espiritualista, quando ele me disse que ganhara um livro de uma senhora residente em uma Casa de Repouso de Ribeirão Preto. Como ele não era um expert no gênero poético, gostaria de me enviar o livro para que eu o lesse. Um dia depois, a obra estava na portaria de meu prédio. Era um exemplar velho, meio encardido, carregando na capa e nas primeiras páginas  a prova de sua antiguidade.
   Abri a antologia  Poesia Brasileira Hoje, com o título de Os Poetas Estão Chegando, Editora Soma, 1979, Ano Internacional da Poesia. As orelhas são de um autor de renome, Torrieri Guimarães. Lá ele diz que o livro é descompromissado com qualquer corrente literária, com poetas de todas a gerações e todas as tendências. O seu compromisso maior é com a Poesia.             Despojados e autênticos, sem limitações de escolas ou de estilo, de temas ou de gosto. Ali há emoção e pensamento, crítica social e lamentos de amor. Há Poesia. No final, otimista, Torrieri  enfatiza que os autores esperam estar em todas as escolas, com professores e estudantes, para colocar, sobre a crua realidade de nossos dias, o manto suave da Poesia. É preciso poetizar a vida. Eis a salvação, são sua palavras finais.
   Desconheço o destino do livro, se fez sucesso ou não. Eu o abri e na página 4 há um poema também de Torrieri Guimarães, espécie de convocação aos brasileiros, à nossa raça tão miscigenada, versos cheios de belas metáforas e alusões históricas. Após, quase quarenta poetas. Uma pequena foto em preto e branco, ao lado uma minibiografia e alguns poemas de cada um.
   Fui folheando aquelas páginas, procurando a poetisa que oferecera  o livro ao meu advogado. Homens e mulheres, poetas jovens e mais maduros. Tive, então, grandes surpresas.  Os autores vêm em ordem alfabética. Os poemas são de gêneros, tamanhos e temas muito variados, todos, no entanto, bem escritos, com vocabulário rico e belas metáforas. Na página 44 está Eva Ban, poetisa gaúcha que conquistou fama no Brasil e nos Estados Unidos, com muitos prêmios; um poema seu da Antologia vem escrito em inglês. A segunda poetisa é Alice Bueno de Oliveira, a que ofereceu o livro. Olhei sua foto e estremeci. É muito parecida com minha mãe, naquela idade. Quantos anos tinha, na ocasião? Trinta? Cabelos da época, maquiada, beleza e dignidade. De sua autoria, um poema bonito, de um lirismo melancólico e várias trovas premiadas em Concursos de São Paulo. Algo me impressionou: Como viera viver em uma Casa de Repouso, alguém tão sensível, inteligente, com profissão definida?
    Na Antologia estão também o amigo famoso André Kisil, J. B. Sayeg, membro da Academia de Letras da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, USP. A grande surpresa foi o rosto simpático e jovem de Miguel Cione, meu professor, quando eu era apenas uma adolescente. E de repente, um susto: o jeito de menino, os cabelos negros, o intelectual sério,  político atuante, nosso brilhante professor Gilberto Abreu.         Estou até agora lendo e relendo a preciosa Antologia. Nas mãos, um tesouro  que devo devolver, mas que o coração pede para ficar comigo.
             
           

domingo, 2 de setembro de 2012

MINICRÔNICAS


MINICRÔNICAS

         O amigo convidara. Domingo, almoço às doze horas. Fácil de achar a casa; era diante do cemitério do Bonfim.
         Sábado à noite deitei-me cedo. Sonhando, peguei o ônibus, surgiu a descida, sensação anestésica no estômago, a casinha rosa à esquerda; a entrada, mãe de P. me cumprimentando, quadro de pintor francês, na parede. P., alegre, aparecendo na sala. Biblioteca à esquerda, divã liso, cor de vinho, livros, livros, a carta da Alemanha no canto.
         A manhã do domingo azulou as montanhas de Belo Horizonte. Saí para a visita. Quando a descida surgiu, inquietei-me. A casinha rósea, como eu vira na noite anterior perturbou-me ainda mais. Entrada, mãe de P. , quadro francês na parede.
         Descrevi a ele, quase em pânico, a biblioteca, o divã, os livros, a carta. Não, não podia haver tudo isto! Ele sorri, manda-me verificar. Entro na pequena biblioteca. O vermelho escuro do divã salta aos meus olhos. Os mesmos livros! E no canto, ostensivo como um objeto fetíchico, o grande envelope de bordas azuis e vermelhas, remetido por alguém da Alemanha Ocidental.

                                                II

         Ele surgiu de alguma sombra, perto da escada. Tomou a mão da menina, convidando untuoso:__Vamos lá no meu quarto. Tenho revistinhas para você ler...
        Os olhos da pequena brilharam. A alma inclinou-se ao chamado e o corpo foi de leve subindo a escada, guiado pelo aconchego morno da mão desconhecida. No topo, alguma coisa a reteve. A greve dos Anjos da Guarda terminou?
        Ela olha para o homem, tem um segundo de indecisão e sai correndo para o quarto do hotel, onde seu pai e sua mãe conversam calmamente sobre as compras importantes que devem ser feitas ainda aquela tarde, ali, em São Paulo.
                                              
                                                 III


      As duas caminhavam descalças, evitando as pedras maiores. Dois contrastes de oito anos, cabelos louros. Solidárias nas pernas finas, nos braços de barbante.
      Os dois meninos saem do matinho próximo e tapam a passagem. Uma estaca, passiva, sem saber o que fazer. A outra, coração desembestado, negaceia e escapa por uma nesga de estrada, correndo.
       Menos de cem metros adiante, sem fôlego, para. Olha para trás. Nunca mais a cena lhe sairá da cabeça, dando-lhe comichões pelo corpo, pulsações descompassadas e pesadelos. Debaixo de um dos meninos, que prende como um torniquete, as perninhas da amiga, reagindo, inutilmente, num esforço de animalzinho perdido.

 
                                              IV


      No quintal, sob um céu muito azul,  a cena mágica: ele, com as mãos em concha, aquecia o curiozinho trêmulo, passando a mão sobre sua cabecinha. A ave minúscula era a imagem viva da fragilidade e do medo. Ele a encontrara na gaiola, de costas, perninhas para cima, agonizando. Com medo,  grande ternura e muita esperança, tenta  salvar a avezinha. Aos poucos, o bichinho para de tremer e alguns  minutos depois, consegue comer algo que seu salvador lhe oferece. À tarde, está no seu poleirinho, ainda meio jururu. No dia seguinte, até ensaiou gorjear um pouco, agradecendo seu salvador.

V

     Juna, a caçadora, apareceu com o pobre lagarto verde nos dentes. O pobrezinho tentava inutilmente escapar. Ela se aproximou, mostrando, orgulhosa, sua presa. Os grandes olhos de esmeralda brilhavam de alegria e de orgulho. Tentei livrar o bichinho, mas ela, segura de seus direitos, se negou,  meneando a cabeça, fugindo para o canil. Fui até lá, usei argumentos convincentes,  negociei,  mas foi inútil. Depois de alguns minutos, consegui que ela soltasse a vítima, que saiu, meio troncho, sem a cauda, correndo para a grama. Minha labradora me olhou de maneira estranha, sem entender a injustiça. Nem tentei explicar. Ela acabará por me perdoar.



domingo, 26 de agosto de 2012

A MORTE DE UM IDEAL

A MORTE DE UM IDEAL

        Meu idealismo está moribundo. Todas as manhãs, quando assisto aos jornais televisivos, com variadas notícias de crimes, assassinatos, novidades políticas, votos de louvor à mediocridade, a alma piora. Aí aconteceu um fato que foi a gota d’água.
        Sempre detestei ler traduções. Tradutor é traidor, como se sabe há muito tempo. Ora, meu inglês coloquial e meu vocabulário dessa língua são razoáveis. Mas tenho preguiça intelectual de enfrentar um livro de mais de trezentas páginas, na língua britânica. Teria que usar muito o dicionário. Então optei por não ler mais autores americanos e ingleses, ou outros traduzidos.
        Em uma manhã de julho, assisti, por acaso, a um filme inglês que me encantou e estarreceu. Não digo aqui o nome, porque não quero influenciar ninguém. O fato é que, após, fui pesquisar e descobri que o supracitado filme era a adaptação de um grande autor nipo-britânico e seu romance é considerado entre os cem melhores da última década. Adquiri o romance, traduzido, é claro.
        Abri o livro, eufórica, ansiosa. A primeira linha iniciava com uma próclise: “Me chamo...”. Minha alma desabou. O autor usou o inglês coloquial, ou é uma licença gramatical da tradutora? Perdi o encantamento. Deixei o livro de lado. Após, mandei um e-mail a um ex-aluno brilhante, professor, que fala fluente o inglês, tem um dos melhores Laboratórios de Redação de São Paulo,  é escritor, cineasta, diretor de teatro. A notícia que ele me deu piorou meu estado de alma. Uma famosa editora paulista permite que os tradutores usem uma linguagem mais acessível  aos leitores.
        Foi a morte. Senti-me ludibriada e velhos fantasmas ressurgiram. Lembrei-me de Osman Lins, em seu idealismo exacerbado, dizendo-me: “Um dia, no Brasil, até os operários lerão Nove, Novena”. Foi horrível alertá-lo, mas na época, eu sabia que um dia, nem os universitários leriam Nove, Novena... Fiquei muito infeliz porque acertei. Na década de oitenta, antes da formatura do Curso de Letras, eu dava aos alunos uma lista de livros que eles deveriam ler nos próximos vinte anos. Posteriormente, encontrei alguns que me confidenciaram: “ Eu nunca li nenhum livro de sua lista”...
        Aos poucos, meu idealismo adoeceu. Lembrei-me dos ex-alunos do site Amigos do Vilhena, brilhantes, entusiasmados, iluminados por uma realidade que já não existe mais. Um dia desses assisti a uma reportagem dizendo que no nosso querido Colégio faltavam sete professores, desde o início do ano. E que em quase todos as Escolas Estaduais, acontnecia o mesmo.  
        Sei que o problema é globalizado. O nível cultural do povo piora, dia a dia e, ao invés de elevá-lo, através de uma boa Educação, de um Ensino eficiente, o que se vê é um grande aumento de escolas, ensino deficiente, professores mal preparados, horrorizados pela violência, que grassa como um câncer.
        Aos poucos, pela péssima remuneração, os jovens não se interessam pela carreira do magistério. Lê-se cada vez menos e, recentemente, foi veiculada pela Internet uma notícia terrível: O Analfabetismo Funcional atinge o Ensino Superior. Dados do Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF), divulgados pelo Instituto Paulo Monte Negro e pela ONG Ação Educativa. Apontaram que 38% dos universitários brasileiros são considerados analfabetos funcionais.
        Todos conhecem as causas dessas mazelas: baixos salários dos professores, ensino ruim, terceirização das famílias, que deixam a educação e a cultura dos filhos para a escola, falta de leitura, a Internet e a Televisão, instrumentos sofisticados que, mal usados, viram armas perigosas, inversão de valores, as drogas.
        Contra tais Molochs modernos, não há soluções? A queda, a decadência cultural e moral,  a banalização da violência serão chagas incuráveis?



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Ficção do Passado

A Ficção do Passado

                   Já se sabe que biografias, a própria História da Humanidade, tudo é ficção. Recriam-se os fatos pelos olhos do autor. Pode haver uma pesquisa detalhada, mas a memória guarda episódios diferentes, opta por um ou outro. Ela é seletiva. Experiência interessante é, em uma reunião familiar, surgirem interpretações várias. Ninguém está de acordo. Não foi assim que aconteceu. Quando se lembra da infância, nada é o que parece. Os olhos, os sentidos infantis são diferentes do olhar adulto. Cada um tem sua versão.
                   No famoso poema Pecado Original, Álvaro Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, diz:” Ah, Quem escreverá a história do que poderia ter sido?” . Afirma que se alguém o fizer, esta será a verdadeira história da humanidade.   Teoria interessante. Os seres humanos são mais o que não conseguiram ser. Deste modo, nós somos nossas falhas, o que não conquistamos, os farrapos de sonhos não realizados que deixáramos abandonados na poeira da estrada da vida. O mesmo acontece, portanto, com a História ou o Projeto Primeiro dos homens ou de Deus, o que não foi alcançado. O verso do poema sobre nós é válido também para a História dos povos: “Somos todos quem nos supusemos”.
                   O tema é fascinante e serve de lição para teimosos, cabeçudos e donos da verdade. Quando alguém afirma que está certo é porque nada sabe e, provavelmente, está errado. Aliás, não há erro nem acerto, mas apenas hipóteses, ou posicionamentos pelos quais optamos.  Na religião, na filosofia sobre o que vem depois, quando a vida finda, enfim, todas as teorias sobre o post mortem, se há prêmio ou castigo, necessidade de resgate, volta, tudo é hipótese.
                   Ora, a vida não é uma ciência exata. Místicos, filósofos, espiritualistas, cientistas, todos tentam explicar os mistérios que nos envolvem. Na realidade, a insciência humana põe todas as respostas em xeque. E quem acerta é o poeta: “Não procures nem creias: tudo é oculto”. Verso enigmático. Dá o conselho negativo que não deve ser seguido, porque o mistério existe, mas está escondido, é algo esconso, ao qual o homem dificilmente terá acesso.
                   Diante de complexidade tão grande, deve-se ficar atento, não ser ingênuo. Nada de afirmações categóricas, rotulações, preconceitos. Tudo que se relaciona à vida, ao ser humano, pode ser, talvez seja, provavelmente será. Há uma citação de Heitor Villa-Lobos, sobre a efemeridade do tempo, que tenta explicitar como tudo é fugaz, passageiro, dúbio, sutil, o que torna a existência algo inefável, jamais explicada por fórmulas rígidas e lógicas: “Assim como não gosto de pensar no futuro, não me sinto bem olhando o passado. Eu sou como um viajante que, ao atravessar um rio em um cipó, não pode olhar para trás nem para a frente, a fim de não perder o equilíbrio”.
                   O ser humano é a grande  vítima de uma passagem terrena tão fugaz. Surge então a filosofia do Carpe Diem ( aproveite o dia, o momento) ; são palavras de Horácio, na ode I. No entanto, semanticamente este verbo é rico, multívoco, plurissêmico: Responda-me, leitor, rapidamente, sem titubeios: O que é aproveitar a vida? Sem dúvida, haverá dezenas de respostas, as mais variadas, dependendo da cultura, do caráter, da filosofia e até da genética. Guimarães Rosa, o Mago de Cordisburgo, não tinha razão ao afirmar que a vida é perigosa?

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

AXIOMAS

AXIOMAS

                          A Língua Portuguesa é muito rica. O termo acima é sinônimo de dito, provérbio, ditado popular, anexim, máxima, sentença, refrão, rifão, aforismo e brocardo. São verdades insofismáveis e se tornam tão conhecidas que não têm mais autor. Viram “chavões” repetidos por todos. Alguns, no entanto, não caem no gosto popular ou são menos usados. Quando se escreve, citar os muito comuns é considerado de mau gosto, como: “A união faz a força”, “Quem semeia vento colhe tempestade”. Apesar de muito conhecido, há algo mais certo que a assertiva: “Cabeça vazia, oficina do diabo”?
                          Raramente falo (ou escrevo) sobre o passado. Gosto dele (houve muita coisa boa!), mas prefiro deixá-lo em paz. Um dia  desses, todavia, assim de repente, um axioma galego me veio à cabeça. Eu o ouvi em uma das inúmeras viagens à terra de meu pai, a poética Pardesoa, aldeia que fica a uns cem quilômetros de Santiago de  Compostela. A prima alegre e despachada disse no seu “portunhol” ( o que é o galego senão, até historicamente, a mistura de português e espanhol?): “As coisas não são como começam, mas como acabam”. Sábias palavras. Justifiquemos. Todo início é dúvida. Negócios, passeios, casos de amor, até casamento. Há uma enorme distância entre o planejado, o  que se espera e o final, quando se olha para trás e em flashback analisa-se como tudo se deu. Por isso o poeta diz: O caminho se faz caminhando. É no vivendo que se vai descobrindo até que ponto os projetos estão sendo concretizados. Após, quando tudo se acaba (ou parece acabar) , pode-se analisar com minúcia e comparar se aconteceu o esperado, se houve boas ou más surpresas, flores ou abismos.
                          Quando chegar a hora derradeira, é capaz de ter lá do outro lado, um grande computador para fazer download  de tudo que se viveu. Serena, ou angustiadamente, saber-se-á o que se concretizou ou o que se perdeu durante a caminhada. Nada foi deletado. É o acerto final. Por que não se cultivar o hábito de fechar para balanço de vez em quando para analisar a performance, ou como andam as realizações de nossa plataforma de governo?  Quando os resultados são ruins e o homem for reprovado na prova final, nada mais há que se fazer. É preciso, pois, se precaver e ficar atento aos sinais de pequenos e grandes fracassos, quando ainda há possibilidade de mudanças e estratégias.
                          Há outro anexim, também galego, interessante: A vida é um tango e a morte, um passo doble. Pode-se facilmente comprovar a sabedoria do aforisma, mostrando a pertinência da metáfora. O tango, como a vida, é a mistura de ritmos vários, paixão, sentimentos conturbados, tragicidade. O passo doble , por sua vez, dança originária da Espanha, encarna o espírito do toureiro. É  símbolo de violência emocional,  valentia, coragem, desafio, perigo. O que é a morte, senão uma tourada, que sempre culmina com um epílogo fatal?

                          No livro “O avesso das coisas”, Carlos Drummond de Andrade cria, com inteligência e originalidade, em estilo sucinto e condensado,  um conjunto de aforismos, de A a Z, com as mais diversas definições sobre o amor, a vida, a cultura, vícios e virtudes, a morte. Em um deles afirma que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, mas mortal, para evitar competição.
                          Assim são os axiomas, sabedoria comprovada em breves conceitos. Talvez seja um excelente exercício minimizar problemas humanos, para compreendê-los. Em pequenas doses homeopáticas ficará mais fácil tomá-las religiosa e diariamente. Não seria esse um dos caminhos para alcançar a almejada sabedoria?

domingo, 5 de agosto de 2012

VERDADES & SUPERSTIÇÕES

VERDADES & SUPERSTIÇÕES

                           Agosto vem do latim Augustus, oitavo mês do calendário gregoriano. Decreto em honra do imperador César Augusto. Ele não quis ficar atrás de Júlio César, em honra de quem foi batizado o mês de julho e estabeleceu que “seu” mês também tivesse trinta e um dias.
                           Por que razão agosto é um mês aziago?
                           Há outros motivos que acirram a ideia de mau agouro. Desde o século XVI fatos históricos nefastos, desastres aconteceram em agosto. E mais: o primeiro homem foi eletrocutado na cadeira elétrica, nos Estados Unidos, dia 06/08/1890. Começo da primeira Grande Guerra Mundial: 01/08/14.Dia 02/8/32 Hitler começou a governar a Alemanha. Agosto de 39: começa a segunda Grande Guerra Mundial. Hiroshima e Nagasaki foram destruídas pela bomba atômica, em um dos mais cruéis episódios da História, nos dias de 6 a 09 de agosto de 1945. Em 13 de agosto de 1961 foi iniciada a construção do Muro de Berlim, o Muro da Vergonha. Tragédia brasileira: morte de Juscelino Kubitscheck, em um controverso desastre automobilístico, dia 09 de agosto de 1976. Anteriormente, outro episódio fatídico abalou o Brasil, no dia 24 de agosto de 1954: o insólito suicídio de Getúlio Vargas. A data ficou marcada pela importância do mais famoso político brasileiro. Ele deixou uma Carta-testamento, que foi    lida em seu enterro, por João Goulart. O documento é endereçado ao povo e se inicia tragicamente: “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado de minha morte”.
                           Produto de verdades e superstições, agosto é um mês negativo. Derivado do latim, o termo significa uma crença contrária à fé religiosa e à razão. Tentou-se encontrar uma explicação nos domínios da razão, todavia o termo, principalmente hoje, tem sido utilizado, às vezes, como o resultado de processos derivados mais do preconceito.
                           Na realidade, as superstições ficam arraigadas no nosso íntimo, mesmo que a razão as tache de tolices. O famoso dito do grande Miguel de Cervantes Saavedra é notável: “Eu não creio em bruxas, mas que elas existem, existem”. Assim, como explicar manias populares, temores. Passar debaixo de escada dá azar, deixar bolsa no chão faz ficar pobre, vassoura atrás da porta livra de visitas indesejáveis, trevo de quatro folhas dá sorte, o número treze atrai malefícios, colocar Santo Antônio de cabeça para baixo é bom para arrumar casamento, deixar roupas do avesso é ruim, chupar sementes de romã, ou tomar sopa de lentilha, na passagem do ano, traz riqueza. Enfim, são centenas de superstições que driblam a razão e a inteligência.
                           Todavia, quando falo em agosto, gosto de relembrar um trecho de famosa crônica de Rubem Braga. No texto, o narrador, após tentar, sem sucesso, usar a linguagem denotativa, confessa o que ele gostaria realmente de escrever: O luar de agosto semeava crisântemos brancos e bicicletas verdes no abril azul dos sonhos dourados de mariposa castanha.
                           Chamar o luar de agosto de crisântemos brancos, utilizar metaforicamente a imagem de bicicletas verdes e o mês de abril, como símbolos de felicidade e aludir aos sonhos doirados da amada, sua mariposa castanha, tudo é puro lirismo. Isto é poesia. O mês de agosto está salvo, abençoado contra todas as possíveis superstições que o envolvem.