domingo, 27 de outubro de 2013

MENSAGEM À MINHA MÃE




MENSAGEM À MINHA MÃE

        Minha querida, agora em outubro, mês de seu aniversário, faz um ano e meio que você partiu. O povo diz que o tempo ameniza tudo. É falho. Cronus nos ludibria. Você não está mais aqui, embora eu a sinta viva, próxima.
         Vejo-a ainda, em sua cama, sorridente, convidando-me para assistir a um filme, na televisão, ou na mesa, quando eu a levava para saborear os pães-de-queijo que meu marido fazia. Você sempre teve um ótimo apetite.
         Estranho a casa sem você e ponho-me a filosofar. Sempre fomos mais amigas que mãe e filha. Admirava sua vaidade. Mesmo depois de noventa anos, adorava fazer as unhas, escolher cores de esmalte. Uma vez por mês, vinham pintar seus cabelos, ainda belos, da cor que você sempre apreciou, um loiro cor de trigo.
         E quando viemos de Minas para Ribeirão Preto... Eu era quase uma menina, você tinha pouco mais de trinta anos. Bonita, elegante, meu pai tinha ciúmes. Não gostava que saísse sozinha, mandava-me acompanhá-la, para que os homens não lhe fizessem galanteios. Aí, eles faziam às duas...
         Quando adolescente, comecei com os namoricos; voltava emocionada para casa, a fim de lhe contar as novidades dos amores prematuros, dos flertes. Você ria animada. Éramos cúmplices.
         Fui estudar fora, em Belo Horizonte. Em uma das férias, vim para casa e encontrei-a descuidada, com um cabelo feio, vestidos de decote alto. Nem parecia minha mãe linda. Levei-a ao cabelereiro, fez as unhas, começou a se maquiar, compramos um vestido rosa elegante, decotado, que realçava seu belo colo.
         Meu pai, espanhol bravo, ficou enciumado. Que fez com sua mãe?! Mais tarde me confessou que você estava muito mais bonita...Quando fui para a França, estudar em Paris, durante um ano, recebia cartas suas, todos os dias. Eram enormes, com notícias. Às vezes você ilustrava-as, com desenhos deliciosos.
         Ah, minha mãe querida, amiga dileta, mulher notável! Sempre foi muito religiosa, uma fé de carvoeiro, inabalável. Eu, desde criança, era um mar de dúvidas. Depois de adulta, muitos sacerdotes embaraçavam-se com meus questionamentos. Na escola, azucrinava os pobres professores, perguntando tudo. Vida engraçada. Depois,  professora, eu apreciava alunos questionadores. Como esquecer a meninazinha da quinta série? Levantou a mãozinha e perguntou: Professora, o que é orgasmo?
         A senhora riu muito do que fiz. Fechei a porta da classe e rasguei o verbo, explicando claramente. As crianças ficaram estáticas, quietinhas, na maior atenção... Em casa, contei-lhe o acontecido. Você adorou meu relato. Outra vez, eu convidara os alunos da oitava série, para assistir à série Anos   Dourados. No final, o narrador diz que uma das personagens casara virgem. No dia seguinte, os alunos estavam alvoroçados. Como podia ser? Aparecia a garota tirando o sutiã, abrindo a braguilha do rapaz e depois os dois deitavam-se atrás do sofá...
         Respondi que devia ser uma relação sexual incompleta. Eles exigiram que eu detalhasse. Não dei conta. Chamei a professora de Biologia e ela não titubeou. Pegou o giz, desenhou na lousa e disse: Isto é um pênis. Isto, uma vagina. Aqui é o hímen. Cientificamente, pôs a cartas na mesa. Os alunos ficaram atentos e sérios. Eu estava salva!
         Em casa, você, de mente aberta,  aplaudiu a professora. Ah, mãezinha, a vida é bela. Mesmo você, aparentemente longe, continua sendo minha confidente. Agradeço a Deus por deixá-la ficar comigo para sempre.
        

                           

        
          

         

domingo, 13 de outubro de 2013

RECADO

RECADO
                
                 Tu sabes que eu te respeito muito, querido Leitor. Um pedido teu é uma ordem.  Enfatizo a tua importância e digo-te  que nada teria sentido, quando escrevo, sem ti. Tu és meu co-autor, meu comparsa. Hoje, no entanto, eu te falo como a um irmão, meu sósia, xerox que somos de alma, de fraquezas e de grandezas misturadas, fazedores de sonhos, perdedores de ilusões, mal informados na arte de viver, na qual somos jogados como em uma louca partida, sem mesmo conhecer as regras do jogo, a arbitragem, limites do campo, o tempo disponível e se há possibilidade de prorrogação.
                 Tu me pediste para publicar, de novo, os questionamentos abaixo, para tua reflexão. Obedeço. Já pensei muito sobre tais perguntas. Tu te lembras? Eu começo afirmando:
                    EU sou TU, Tu me és, como diria Clarice Lispector. Se não acreditas, desarma-te, esconde tuas garras e tuas tramas, tira todas tuas máscaras habituais e responde: 
                 _ Nunca te sentiste inseguro, vendo o mundo como um quebra-cabeça sem matriz e de onde roubaram algumas peças?
                 _ Não foste, na adolescência, uma sarça ardente de sonhos, um vulcão de entusiasmo, acreditando que o mundo ali estava para ser conquistado?
                  _ Não te alimentaste do fervor e do fogo com o primeiro amor, para vê-lo logo após te fugir das mãos, como areia em ampulheta maldita?
                  _ Não fremiste com o primeiro beijo, o primeiro carinho, trilha encantada e depois perdida para sempre?
                _ Não foste um Sísifo rolando eterna pedra, construindo castelos de sonhos que eram derrubados pelo tempo?
                _ Nunca andaste sob as estrelas, pelas madrugadas, cego pelas lágrimas que te escorriam pelo rosto?
                 _ Jamais foste traído pela pessoa querida, pelo ente amado, em quem punhas todas as tuas esperanças?
                  _ A vida não te pregou peças, atrapalhando teus planos, frustrando tuas expectativas, fazendo-te de bufão, quando o teu papel era de rei?
                 _ Tu não juraste jamais te apaixonares de novo, quando teu amor morreu, e te viste, de repente, outra vez, inexoravelmente louco de paixão?
                 _ Não prometeste ser forte, heróico, perfeito e sem explicação alguma foste arrastado pelas tuas fraquezas?     
                 _ Não bateste no peito, mil vezes, “mea culpa”, “mea culpa” e de novo teus velhos pecados te possuíram, com fatídica renitência?
                 _Não disseste, apaixonadamente, “Eu te amo para sempre!” e, em um átimo, já havias esquecido a promessa?
                 _ Teus lábios não disseram tantas vezes “sim”, quando teu coração negava, ou tua boca não pareceu mentir o que deveras sentias?
                 _ Não tiveste, como o Cristo, o teu Gólgota?
                 _ Não sentes, ainda hoje, apesar de todo o Absurdo, uma obstinada Esperança?
                 _ Não continuas servo da Morte, todavia um amante pertinaz da Vida?
                  Se nunca experimentaste isto, se jamais conheceste esta rota, se achas que digo loucuras, se és diferente, então vai embora, teu lugar não é aqui. Não és um ser humano.
                  

                 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DO SOFRIMENTO

DO SOFRIMENTO

         O sofrimento é algo inerente ao ser humano. Uma segunda pele. Criatura imperfeita, ele almeja a perfeição. Mortal, efêmero, ele sonha com a eternidade. Bicho cheio de carências e necessidades. O sonho alimenta a alma inquieta; se não sonha, morre. Quando realiza alguma  das suas mais íntimas aspirações, logo ela é posta em segundo plano e o outro ideal a substitui, porque a alma é insaciável e sequiosa. No deserto dos infortúnios, o sonho é um  presente de grego que nasce com esse macaco glabro e bípede, que talvez  seja um desvio, um acidente de percurso da Criação, por isso é frágil e inseguro. Às vezes surge um oásis de verde alegria. Ela é sempre bela e fugaz. Por isso é que felicidade é o mais abstrato dos substantivos.
         Por que não ser simples e satisfazer-se com necessidades básicas? Companheiro(a), filhos, casa, comida, dinheiro que dê para as premências diárias. Sem isso, impossível viver. Mas por que só isso não basta? De onde vem a ânsia que não se sabe de quê, os desejos mais insólitos e inconfessáveis, a certeza de que nada poderá preencher esse vazio, a busca cega, força maior, desassossego contínuo, paz inalcançável ? Surge o sofrimento , amigo inseparável do homem. Com entendê-lo? Alguém inteligente, talentoso, profissional de renome, olha-me com tristeza e filosofa: “Sou um Ph.d. em sofrimento”. É intrigante. Quais os parâmetros que o fazem afirmar isso? O sofrimento pode ser uma carência metafísica insanável? Reconhecendo-se um ser mortal, imperfeito e efêmero, em essência, a felicidade, a alegria  tornam-se inatingíveis? Dostoievski afirmou que a maior desgraça do homem é a lucidez. Enquanto o homem cria seus mitos e doura a pílula das mazelas diárias, para suportar as incongruências da vida, o absurdo da existência humana, ele pensa que é feliz. Faz ficção, mascara a realidade, vive eufemicamente o decantado amor,  a busca pela rara paixão que os assinalados conseguem sentir, tudo são muletas, drogas para não enlouquecer.
 Os chamados realistas criticam o amor-mistério, da cavalaria, herança de Camões, que depois passa pelo resgate de Hollywood, com Casablanca, e desemboca nas novelas da Globo; é amor- ilusão, de pseudo-adulto, que ficou emocionalmente entre a adolescência e a idade madura, sentimento que não resiste à aspereza da realidade do mundo moderno. São posicionamentos diversos. As relações dos seres humanos são complexas demais para serem rotuladas.
         Ora, o que se pode fazer é tentar compreender a complexidade humana.  Parafraseando o grande poeta Cassiano Ricardo: Desde o momento em que se nasce, já se começa a sofrer. Se a vida é luta, busca incontínua e vã para se conquistarem prêmios efêmeros, como coabitar com a lucidez, ter sempre a tristeza como parceira, não se desesperar? O homem reinventa a vida, com suas verdades, ainda que falsas, pesquisa, lê livros imbecis de autoajuda (só se fossem escritos por Deus, sapiência suprema), enfim, criam uma realidade insuportável e acaba, às vezes até nas suas ficções.

         Enfim, o que é sofrimento? É algo inerente, intrínseco ao homem. Talvez a felicidade, seu antônimo, seja conseguir driblá-lo, durante toda a vida. Não são importantes as armas escolhidas para essa luta terrível. O resultado é o que conta.

domingo, 29 de setembro de 2013

MITO E REALIDADE

MITO E REALIDADE

         A Pedra Filosofal é a fórmula que os alquimistas tentaram descobrir para transmudar metais comuns em ouro. Conta o mito que o homem, obcecado por encontrar tal tesouro, de tudo esqueceu, família, amor, sonhos. Envelheceu na procura. E no final, alquebrado, viu, com surpresa, que seu cinto, as sandálias, tudo virara ouro. Em algum lugar ele tocou na pedra valiosa. Ia tão cheio de ambição que não percebeu. A moral da fábula é evidente. Poder-se-ia ampliar o conceito de Pedra Filosofal, enriquecê-lo. Elas são várias, de diferentes tipos. Há a pedra-amor, a pedra-amizade, a pedra-profissão, a pedra-realização pessoal.          É nesse sentido amplo que os maçons usam uma assertiva interessante: é preciso lapidar a Pedra Filosofal. Pressupõe-se que a lapidação é ato posterior ao conseguir, achar. Na realidade, não deveríamos lapidar todos os nossos dons? Muito será exigido a quem muito foi dado, pregam os Evangelhos. Assim, os dons mais variados são distribuídos aos seres humanos. Não há escala de valores, não há dons mais ou menos importantes. Na verdade, a sabedoria está em burilá-los, desenvolvê-los; ser grande até nas mínimas coisas. Nada exclui, tudo será computado.
         Nas Lojas Maçônicas há uma Sala de Reflexão. Grande ideia! Por que não criar uma nas escolas, nas casas? Cada lar viraria uma Igreja Doméstica, para cultivar a espiritualidade. Talvez seja este um dos antídotos contra a violência. Evidentemente, não é a panaceia para todos os males, apenas uma ajuda.
         Voltemos à Pedra Filosofal. Há termos carregados de sentido. PEDRA é um deles. Semântica riquíssima. Na língua portuguesa (e em outras latinas) há expressões interessantes: pedra de toque _meio de avaliar, aferir, o nó do problema; pedra fundamental _ início; pedra angular _ alicerce; biblicamente também o termo é rico. Há expressões pejorativas: pedra no sapato; pedra de tropeço; pedra de escândalo; com quatro pedras na mão; não deixar pedra sobre pedra; ser de pedra; pôr uma pedra em cima (de um assunto); atirar a primeira pedra (do episódio bíblico); de pedra e cal _muito unido; dormir como uma pedra; tirar leite de pedra; carregar pedras enquanto se descansa (trabalho estafante).
         Não se pode falar no termo, sem citar o mito de Sísifo, símbolo do homem rolando persistentemente sua grande pedra, e ela, quando chega ao cume, volta ao sopé da montanha. Nós e a luta renhida para o aperfeiçoamento como seres humanos; isso só é possível, substituindo sonhos.
         Não é casual (na vida, na História, nada é) que o Cristo elegeu Pedro: “Tu és Pedro, sobre esta pedra edificarei minha Igreja e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela” (Mateus,16,18).
         É, portanto correto afirmar que a linguagem é a pedra angular do relacionamento humano, elemento de união ou arma letal. Cabe a nós usar com sabedoria esta dádiva de Deus, assim como o livre arbítrio. Mal usados, viram um presente de grego...  Cumpre aos homens utilizar bem a Palavra. Isto é um privilégio, talvez a Pedra Filosofal procurada.

sábado, 28 de setembro de 2013

FLUK

FLUK

FLUK era um gnomo como todos os outros, pequeno, insignificante, com três opções a escolher: guardar os tesouros do interior da terra, tomar conta de uma árvore ou ser guardião de uma roseira. Desde que o mundo é mundo, foi assim e ele devia dar-se por satisfeito: há criaturas que têm uma só opção, outras nenhuma. Mas Fluk não obedecia às leis naturais, só gostava do que não devia, não optou por nada quando completou a maioridade. Passava seus dias a ocupar-se de coisa nenhuma: olhar sua cachoeira que despencava lá do alto em branca espuma rendada, sentir o perfume das flores, vê-las abrir de manhãzinha.
Preferia observar os pássaros no amor, esfregando os biquinhos e roçando as penas macias dos papinhos coloridos, ver borboletas amarelas se amando sobre os roseirais. Era um romântico. Sentia-se só e o coraçãozinho apertava: a vida deve ter um sentido maior, cada criatura vem assinalada para uma grande missão. Qual a sua?
Cismava. Guardar tesouros, ouro ou diamantes, esmeraldas, rubis, safiras, pedras frias que não serviam para nada? Tomar conta de uma árvore frondosa, cheia de si, que não precisava de ninguém? A roseira tinha seus espinhos que a protegiam. E ele viera ao mundo para que? Por que a ânsia, aquela certeza de que algo ainda aconteceria?
Andava assim pelos caminhos, absorto, infeliz, esperando. Olhava as formigas e admirava sua faina incansável, tão ordeiras, obcecadas com o trabalho, carregando inacreditáveis folhinhas verdes para um futuro incerto. As abelhas eram lindas, as habilidosas obreiras ou operárias descendo no coração das flores, sugando o néctar, recolhendo nas patinhas o pólen, executando a dança quando regressavam às colmeias. Odiava a regalia, a imponência da rainha, invejava os zangões, que eram capazes de morrer por amor, no voo nupcial.
E assim vivia Fluk, zanzando de uma banda para outra o dia inteiro, banzando na vida, ouvindo os grilos e os vagos rumores do ermo, flanando por entre as flores, mordiscando uma pétala, vagueando sobre os arbustos, perambulando entre uma espera e um vago sonho.
Um dia viu FLORA, a rainha. Era a primavera e o céu exagerou no azul. O sol doirou a Natureza, aqueceu os corações, os pássaros trinavam, chilreavam, gorjeavam, pipilavam enlouquecidos de beleza. As borboletas coloriam o ar. Ele viu Flora em toda a sua magia primaveril, esparzindo amor e ternura. Fluk descobriu para que nascera: viera ao mundo para amar Flora. Tornou-se poeta. Escrevia poemas belíssimos que o vento levava ao ouvido da Amada. Ela, encantada com as palavras que eram pura melodia, dizia: “Meu Deus! Como alguém pode amar assim?”. Fluk, aos seus pés, mal elevava os olhos, humílimo, tímido, cego de amor.
Correram os dias. Flora continuava cada vez mais bela e mais distante. Fluk percebeu então que a vida pode ser trágica e cavar abismos entre as criaturas. Resolveu morrer. Ficava horas sentadinho perto de sua cachoeira, enxugando as lágrimas com jasmins e rosas brancas. Quando seu coraçãozinho não aguentou  mais, foi para o ponto mais alto da cachoeira e saltou.
Flora passava por ali e pela primeira vez reparou nele. Estranhou que tal criaturinha quisesse morrer e logo na primavera... Quando Fluk se atirou nas águas, a poderosa deusa Flora aparou-o nas mãos e transformou-o em um nenúfar, muito branco, muito belo, que foi pousar com suavidade em um remanso. E lá ficou eternamente, qual alva ninfa sobre a flor das águas.


  

domingo, 15 de setembro de 2013

FÁBULAS E PARÁBOLAS

FÁBULAS E PARÁBOLAS

      Fábulas e parábolas são narrativas curtas, de tempos imemoriais. Elas dão lições, tentam ensinar da maneira mais simples; no final, há sempre um ensinamento, às vezes chamado moral da história. Fedro é dado como o introdutor do gênero. É de sua autoria o famosíssimo texto O Lobo e o Cordeiro.          Todavia, o nome mais expressivo das Fábulas é Esopo, grego que nasceu em 620 a.C. e morreu em 564 a.C. No século XVII, La Fontaine, francês nascido em 1621, reescreveu as fábulas de Esopo, em linguagem clássica, modernizando as narrativas; há também algumas escritas por ele; cite-se como exemplo a deliciosa La Jeune Veuve.
     Jesus Cristo ensinava por Parábolas, algumas famosíssimas, vide a do Semeador, plena de sabedoria. Dizem que utilizava o gênero, para ser facilmente compreendido pelo povo. Nosso Mestre entendia de Pedagogia... 
     Às vezes se misturam os conceitos de Parábola, Fábula e Apólogo. Tentemos dar uma diferença simples: A Parábola dá uma lição de ética, através de prosa metafórica, para transmitir sabedoria. O termo vem do grego “parabole”. A Fábula, em geral, apresenta animais como personagens; eles agem como os seres humanos, com seus vícios e fraquezas. A moral vem em uma frase, no final da narrativa. O Apólogo é um gênero alegórico. São lições de vida, através de situações semelhantes às reais, envolvendo pessoas, objetos ou animais, seres animados ou inanimados. Um dos Apólogos mais famosos é A Agulha e a Linha, de Machado de Assis.
     Uma das Fábulas mais conhecidas, A Cigarra e a Formiga, foi reescrita até hoje, por muitos escritores. No entanto, ela é deliciosa na visão da nossa Emília, a contestadora, a personagem mais famosa de Monteiro Lobato. Quem não conhece a historieta, realçando, enfatizando o valor do trabalho e da poupança? A Formiga era precavida, trabalhadeira, prática. A Cigarra, boêmia, boa vida, cantava e dançava. No inverno, doente, fraquinha, a Cigarra pede ajuda à Formiga. Esta, nada cristã, bate a porta na carinha da Cigarra e ainda lhe dá uma lição de moral: Não cantou o tempo todo? Agora dance... Emília detestou a Formiga, amou a Cigarra e reescreveu o final da Fábula: Quando a Cigarra bate à porta da Formiga, esta abre e vê a Cigarra linda, bem vestida, com um casaco de vison. Nossa artista diz à Formiga: Quer alguma coisa de Paris? Fui contratada para cantar e dançar no Olimpia, com excelente cachê! A Formiga, furiosa, lhe diz: Conhece um tal de La Fontaine? Se o encontrar  lá, mande-o para o inferno!
      Assim são as Fábulas, eternas. Sua interpretação é riquíssima. Há uma delas, moderna, que já foi citada por muitos e até contada em filmes. É a da Rã e do Escorpião: Houve um dilúvio e o Escorpião chega perto da Rã, todo cavalheiro e lhe propõe que a Rã o atravesse para o outro lado. Os dois seriam salvos. Ao que a Rã retruca: Cuidado, se você me picar, morreremos os dois. “Você está louca, amiga Rã! Jamais farei isto!”. E lá vão os dois, atravessando o mar de águas turvas e perigosas. De repente, o Escorpião pica a Rã... Ela, moribunda, lhe diz: “Por Deus, por que fez isto?! Ambos vamos morrer!”. O Escorpião responde: “Não consegui deixar de fazê-lo. É minha natureza...”.
     Gosto muito dessa fábula moderna. Pela vida a fora, eu, Rã por natureza, credulidade ou ignorância, dei muita carona a Escorpiões de várias espécies. E haja picadas... Não me mataram, no sentido denotativo do verbo. Talvez apenas arranharam a minha crença nos seres humanos.
      

        

domingo, 8 de setembro de 2013

CARTA ABERTA A DEUS

CARTA ABERTA A DEUS
   
     Senhor! Não me julgue insensata, ousada ou herética. Eu O amo, respeito, mas não consigo entender as regras do Alto Escalão aí de cima. Elas existem? Tudo não pode ser casual e aleatório. O que acontece com os seres humanos, hoje e sempre?
      Tenho certeza de que a receita do Fiat era perfeita e Suas intenções as mais excelsas. Então, por que nunca deu certo? Cada vez mais os Homens chafurdam nos vícios, perdem-se nos mares da ambição, nos charcos das maldades. Tudo é culpa do malfadado e duvidoso livre arbítrio, que mais parece um presente de grego, que um prêmio?
      É bem verdade que aparecem alguns Santos, criaturas magníficas, que dão exemplos de bondade, de amor, de altruísmo. Todos os admiram, mas ninguém os imita. O Senhor até nos enviou seu Filho Jesus Cristo, só bondade, Homem e Deus, que deu a vida pelos irmãos. Adiantou? Não. Muitos dizem amá-LO, mas continuam nas veredas da perdição.
      Tenho ainda muitas perquirições. Criança ainda,  aprendi na Bíblia, que havia dois Profetas muito diferentes: Jó e Habacuque. O primeiro era dócil e obediente, passivo, aceitava os desígnios de Deus, sem protestar. Assim, foi um dos mais infelizes dos mortais. Habacuque, ao contrário, era orgulhoso, ousado, corajoso e questionador. Não tive dúvidas. Eu era mais Habacuque que Jó. Por isso, hoje, na velhice, continuo indignada com minhas eternas perguntas sem repostas.
      Veja, Senhor meu: os bons, os generosos, os puros de coração, os que fazem do amor, da caridade e da integridade, sua bandeira, como são recompensados? São mais livres de dores, perdas, doenças, sofrimento? Não. Muito pelo contrário.
Continuando, com maior respeito, meu Deus, siga meu raciocínio. Surgiram religiões, seitas que falam em Inferno. Verdade? Como o Senhor conseguirá lugar para tantos?! E ad aerternum, para sempre?! Outras filosofias negam a existência de tal sentença macabra. Falam em reencarnação, muitas partidas, idas e voltas, para depurar, aperfeiçoar.
      Não sei. Respeito todas as teorias, todavia tenho dificuldade em aceitá-las. Por quê? No mundo moderno e de sempre, justos e pecadores parecem receber castigos idênticos. Os Filhos do Demo (perdão, Senhor, é apenas uma expressão...), aqui não são castigados. Têm morte rápida e indolor, passagem fácil. Alguns bons, esforçados, amigos das virtudes, sofrem horrores, com doenças horríficas.
      Eu só queria entender, meu Deus querido: por que tanta falta de lógica? Há exemplos, não sei se verdadeiros, que alguns, como Voltaire, o grande hipócrita, morreu como um animal daninho, com pavor e dores, subindo pelas paredes, em tresloucada loucura. Não sei se é lenda. Mas e tantos outros monstros?
      Senhor, lance um olhar sobre esse mundo nosso. A maldade, a corrupção, a violência, bestialidades monstruosas, tudo ficou globalizado, comum, repetitivo. Basta o Senhor assistir, aí do alto, aos jornais televisivos do mundo... Ah, perdão! Quase me esqueci de que o Senhor não precisa disso, pois é a sapiência suprema, que tudo sabe e tudo vê.
      Mas, então, meu Senhor?! Há um porquê em tudo isto? Dá para entender? Há respostas? Perdão. Não estou LHE cobrando nada. São só elucubrações de uma pobre mortal, na minha  ignorância.  Se puder, me dê uma luz. É     pedir demais? Afinal, sou criatura sua.